segunda-feira, 20 de abril de 2009

MORAL E RAZÃO

“É preciso institucionalizar a solidariedade, isto é, criar uma ética da solidariedade”.
Helio Pelegrino – Psiquiatra


Para Sócrates, o maior dos problemas da filosofia seria o encontro de uma ética natural que tomasse o posto da ética sobrenatural que estava sendo destruída pela filosofia. Se fosse possível construir um sistema de moralidade independente de credos teológicos, estes credos poderiam desaparecer sem prejuízo para o cimento que faz de simples indivíduos cidadãos de uma comunidade¹.
O grande desafio humano, em todas as épocas, tem sido conter em níveis suportáveis as manifestações egoísticas que buscam obstaculizar o processo civilizador construído, penosamente, pela ação altruísta.
Os códigos morais de todas as culturas buscaram na autoridade divina respaldo para a imposição de modelos comportamentais que, controlando os impulsos egocêntricos, tornassem possível a vida comunitária.
Se for verdade que esta pedagogia impositiva e paternalista foi eficiente para nos arrancar da barbárie e construir a civilização que conhecemos, mostra-se crescentemente ineficaz nos dias atuais. O filósofo e pedagogo americano John Dewey declara no seu livro “A Common Fayth” que o homem não tem usado de modo amplo os poderes que lhe são inerentes para melhorar as próprias condições de vida, porque tem esperado muito do auxílio divino e da natureza.
Diante do enfraquecimento da moral de fundamento religioso, já que a determinação divina é cada vez menos respeitada pela humanidade, histórica e mitologicamente desobediente, buscamos ainda agora, uma moral de base racional produto de um conhecimento mais amplo da vida e seu significado. O grande problema da ética como estudo racional da moralidade se resume em saber se é desejável ser bom e, em caso afirmativo, como pode ser o homem persuadido a ser bom.
Seria o Espiritismo uma resposta inteligente e oportuna a estas questões? Vários elementos que estruturam o pensamento espírita sugerem que sim.
É verdade que não existe uma moral Espírita e sim uma postura moral que decorre naturalmente do conhecimento e da aceitação dos fundamentos essenciais do Espiritismo. A idéia da evolução e, sobretudo, o princípio da reencarnação, a ela subordinada, que determina a troca de papéis nas diversas experiências físicas, oferecem substrato racional riquíssimo para a adoção consciente de um modelo comportamental fundamentado na tolerância racial e social, na solidariedade enfim.
A percepção espírita de uma “lei de causa e efeito”, disciplinadora da evolução no plano físico e no plano moral, torna o homem responsável pelos seus atos e, também, arquiteto do seu destino. Esta visão marcadamente humanista foi também compartilhada pelo pai da Psicanálise, Sigmund Freud, a quem se atribui a afirmação de que “o homem realmente esclarecido é espontaneamente moral, sem precisar temer o castigo divino.”
Na visão Espírita a sociabilidade é uma das leis naturais e o problema moral, isto é, o problema de assegurar a dignidade humana sem recorrer a fábulas ou à força seria de todo insolúvel se a moralidade estivesse em completa oposição à natureza.
No início do século XVII o notável Francis Bacon nos oferece uma interessante teoria de moral natural que só pode ser corroborada depois do advento de Charles Darwin que, no cap. IV da “Descendência do Homem,” lançou os alicerces de um código moral em que os credos teológicos eram substituídos pelas demonstrações da biologia. Bacon estava certo; a teoria evolucionista demonstrava que o homem é por natureza social, porque a vida social é anterior à vida do homem e a humanidade já surgiu com a sociabilidade no sangue.
Ao contrário do que dizem os teólogos bíblicos, o homem foi “bem feito.” O humanismo espiritocêntrico proposto pelo Espiritismo, independentemente de razões antropológicas e históricas, nos convida a crer no homem, sobretudo, por ser o homem a melhor e mais perfeita obra de Deus que conhecemos e, portanto, crer no homem é crer em Deus.
O conceito filosófico de imanência como um atributo de Deus sugere que a ação divina se manifesta na intimidade do homem na medida em que os desafios da convivência se tornam imperativos, exigindo soluções inteligentes. Neste processo ele se torna, naturalmente, mais atento, mais sensível à presença divina que convida ao amor.
Como se vê, na medida em que dispusermos de robusta filosofia de vida e o espírito de exame sobrepujar, enfim, o espírito de aceitação, poderemos fazer no campo moral o mesmo tipo de seleção que já aprendemos a fazer no da alimentação. Pela experiência e pelo conhecimento racional das conseqüências em todos os níveis, descobriremos a conveniência humana do bem, criando assim condições para a institucionalização de uma ética natural capaz de substituir as sanções sobrenaturais como sonhava Sócrates.
É interessante notar que estas reflexões, antes de nos afastarem da idéia de Deus, marcam uma significativa mudança na compreensão humana do mesmo que, deixando de ser mero síndico a quem apelamos para solução de conflitos nas nossas relações condominiais, transforma-se no legislador que concebe as grandes leis da convivência para as quais não existe apelação.

¹ - Will Durant - História da Filosofia - Cap. 1

Maurice H. Jones

3 comentários:

Milton disse...

Maurice, em relação a "Moral e Razão" a minha opinião é de que ele constitui um exemplo perfeito do conceito (mais frequentemente utilizado no budismo) de "iluminação". Achei o teu texto simplesmente brilhante!

Milton Pires. Médico Cardiologista e Internista. Membro da Sociedade Bezerra de Menezes

Cristina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cristina disse...

Muy lindo Maurice! Como verán sigo siempre muy cerca de ustedes! Un beso grande a todos! Cristina (Argentina)